TEÓLOGOS SOBRE INFIÉIS ADORAREM AO DEUS VERDADEIRO
FRANCISCO SUÁREZ:
"Alguns são de fato
supersticiosos em comparação com a fé cristã e seus preceitos, mas não porque
sejam em si mesmos intrinsecamente maus ou contrários à razão natural, como são
os ritos dos judeus, e talvez também muitos ritos dos sarracenos e de infiéis semelhantes,
que adoram um [só] verdadeiro Deus."
[Alii sunt superstitiosi quidem per comparationem ad christianam fidem et
prsecepta ejus, non vero quia per se sint intrinsece mali vel conlrarii rationi
naturali, ut sunt ritus Judaeoium, et forlasse miilti etiam ritus Sarracenorum,
et similium infidelium, qui unum tantum verum Deum adorant]. (R. P. FRANCISCI
SUAREZ E SOCIETATE JESU OPERA OMNIA, editio nova, tomus Duodecimus, 1858, p.
451: Tractatus de fide, Disputatio XVIII, Sectio IV, 9)
"Donde se confirma, porque
isso seria uma certa coação para se receber a fé, o que não é permitido, como
dissemos. E essa razão prova de modo geral quanto aos sarracenos e outros
infiéis que conhecem e cultuam um [só]
verdadeiro Deus, no que diz respeito àqueles ritos que não são contra a
razão natural; contudo, nos judeus, considerou a Igreja haver uma utilidade
especial nessa tolerância, porque o erro deles oferece testemunho à fé da
Igreja em muitos aspectos” [Unde confirmatur, quia illa esset quaedam coactio
ad fidem suscipiendam, quae non licet, ut diximus. Atque haec ratio generaliter
probat de Saracenis, et aliis infidelibus unum verum Deum cognoscentibus et
colentibus, quantum ad eos ritus qui non sunt coutra rationem naturalem: verum
tamen in Judaeis considerata est ab Ecclesia specialis utilitas in hac
tolerantia, quia illorum error testimonium praebet fidei Ecclesiae quoad multa].
(R. P. FRANCISCI SUAREZ E SOCIETATE JESU OPERA OMNIA, editio nova, tomus
Duodecimus, 1858, pp. 451-452: Tractatus de fide, Disputatio XVIII, Sectio V, 5)
“E isso se esclarece por
analogia: pois, se houvesse dois príncipes supremos infiéis, dos quais um cultuasse o verdadeiro Deus conhecido
pela luz natural, e o outro fosse idólatra, que tivesse súditos cultuando o
verdadeiro Deus, este não poderia ser privado, por parte do outro príncipe, do
poder sobre tais súditos por causa de sua idolatria; porque o outro príncipe
não tem jurisdição sobre ele, nem ele se priva ipso facto de tal jurisdição por
causa da idolatria. Logo, é sinal de que, segundo o direito natural, essa ordem
deve ser mantida, pois assim convém ao bem e à paz do universo, e à equidade da
justiça; ora, o poder dado à Igreja não perturba os direitos naturais, pois foi
concedido para edificação, e do modo que mais sirva à conservação da fé;
portanto, não lhe foi dado tal poder que seria antes para destruição, pois isso
redundaria em injúria à fé e em escândalo para os outros”. [Et declaratur a
simili, quia si duo essent principes supremi infideles, quorum unus coleret
verum Deum lumine naturali cognitum, et alter esset idololatra, qui haberet
subditos colentes verum Deum, iste non posset privari ab alio principe,
potestate in tales subditos propter suam idololatriam ; quia alter princeps non
habet jurisdictionem in illum, neque ipse privatur ipso facto tali jurisdictione
propter idololatriam; ergo signum est secundum jus naturale hunc ordinem esse
servandum , qnia ita expedit ad bonum et pacem universi, et ad justitiae
aequitatem; potestas autem data Ecclesiae non perturbat naturalia jura, data
est enim in aedificationem, et eo modo, quo magis deserviat conservationi
fidei; ergo non est illi data talis potestas, quae potius esset in
destructionem, nam cederet in injuriam fidei, et in aliorum scandalum]. (R. P.
FRANCISCI SUAREZ E SOCIETATE JESU OPERA OMNIA, editio nova, tomus Duodecimus, 1858,
pp. 453-454: Tractatus de fide, Disputatio XVIII, Sectio V, 5)
JOÃO DE LUGO:
“Pois entre eles há alguns que,
embora não creiam em todos os dogmas da religião católica, reconhecem, todavia,
o Deus uno, e verdadeiro, como são
os turcos, e todos os maometanos, bem como também os judeus; outros reconhecem
ainda o Deus trino, e até mesmo Cristo, como muitos hereges — a todos esses não
é concedida mais facilmente a salvação e a justificação em sua seita do que na
nossa”. [Nam in iis, aliqui sunt, qui licet non credant dogmata omnia
catholicae religionis, agnoscunt tamen Deum unum, et verum, quales sunt Turcae,
et omnes Mahometani, atque etiam Judaei: alii agnoscunt etiam Deum trinum, imo,
et Christum, ut plures haeretici quibus omnibus non redditur facilior salus, et
justificatio in illa setentia, quam in nostra]. (JOANNIS DE LUGO, HISPALENSIS,
E SOCIETATE JESU, S. R. E. CARDINALIS, Disputationes Scholasticae et Morales,
editio Nova, tomus primus, 1868, p. 405: Disputatio XII, Sectio III)
“Concluo em quinto lugar, o que
se deve dizer do filósofo que crê haver um só Deus, mas nega os outros artigos
de nossa fé. Resposta: com efeito, segundo o que foi dito, deve ele ser contado
entre os pagãos, não apenas se conhece um só Deus apenas pela razão natural e
pelas criaturas, mas também se o recebeu por tradição, a qual teve origem na
primeira revelação de Deus. Pois, como dissemos acima, para que alguém seja
contado entre os hereges ou os judeus, não basta que concorde com eles em um ou
outro artigo, mas é necessário que concorde quanto aos pontos substanciais: a
substância principal do judaísmo é crer que Cristo há de vir; e a do
cristianismo, crer que Cristo veio. Portanto, quem não crê nem uma coisa nem
outra, não é judeu nem cristão, e por conseguinte nem sequer herege, mas deve
ser contado entre os pagãos, como agora devem ser contados os maometanos, que confessam um [só] Deus, e muitos dos quais o sustentam não por razão natural,
mas por tradição, a qual talvez tenha tido origem na revelação de Deus, e por
isso confessam o Deus uno somente mais por fé natural do que por razão; o que é
mais verossímil, como dizem, já que eles recebem até mesmo todo o Pentateuco.
Contudo, como negam que Cristo redentor há de vir ou tenha vindo, são contados
entre os pagãos, que de modo algum recebem a fé de Cristo.” [Infero quinto,
quid dicendum sit de philosopho credente esse unum Deum, et negante alios
articulos nostrae fidei. Resp. enim ex dictis, illum paganis annumerari, non
solum, si unum Deum, ex ratione solum naturali, et ex creaturis cognoscat, sed
etiam, si per traditionem id acceperit, quae ex prima Dei revelatione ortum
habuerit. Nam ut supra diximus, ut aliquis inter haereticos, vel Judaeos
numeretur, non sufficit in uno, vel alio articulo cum eis convenire, sed debet
convenire, quoad substantialia: potissima autem substantia judaismi est credere
Christum venturum: sicut, et Christianismi credere Christum venisse: qui ergo
neutrum crederet, nec Judaeus esset nec Christianus, atque adeo nec haereticus,
sed paganis annumerandus, prout nunc annumerandum Mahometanis, qui unum solum
Deum confitentur, et quorum plures non ex ratione naturali, sed ex traditione
id tenent, quae fortasse ortum habuit a revelatione Dei, atque ideo fide
naturali potius quam ratione Deum unum solum confitentur; Quod magis verisimile
est, ut dicunt, totum etiam Pentateuchum recipiunt. Cum tamen Christum
redemptorem venturum, aut venisse negent, numerantur cum paganis, qui Christi
fidem nullo modo recipiunt]. (JOANNIS DE LUGO, HISPALENSIS, E SOCIETATE JESU,
S. R. E. CARDINALIS, Disputationes Scholasticae et Morales, editio Nova, tomus
primus, 1868, p. 685: Disputatio XVIII, Sectio III)
SÃO ROBERTO BELLARMINO:
"Se, no entanto, alguém
insistir que até mesmo estas últimas palavras devem ser entendidas deste tempo
[presente], pode-se responder: aqui o Profeta não fala dos mistérios ocultos
das Escrituras, mas do conhecimento de
um [só] Deus. Pois, no tempo do Antigo Testamento, não somente os gentios
adoravam deuses falsos, mas também muitíssimas vezes o povo de Deus se voltava
aos ídolos e a deuses estranhos; Jeremias predisse que haveria de acontecer
que, no tempo do Novo Testamento, todos os homens conheceriam um só Deus, o que
certamente agora vemos cumprido. Com efeito, os gentios se converteram à fé, e
até mesmo os judeus e os turcos, embora sejam ímpios, cultuam, no entanto, um [só] Deus." [Si tamen quis
contendat, etiam ista ultima verba de hoc tempore intelligenda esse; responderi
potest: hic non loqui Prophetam de mysteriis absconditis Scripturarum, sed de
cognitione unius Dei. Cum enim tempore Testamenti veteris non solum Gentiles
adorarent deos falsos, sed etiam frequentissime populus Dei ad idola et deos
alienos converteretur; praedixit Hieremias futurum, ut tempore novi Testamenti
omnes homines cognoscant unum Deum, quod certe nuce impletum cernimus. Nam
Gentiles conversi sunt ad Fidem, et ipsi etiam Judaei et Turcae, licet impii
sint, tamen unum Deum colunt]. (Roberti Cardinalis Bellarmini, Opera Omnia,
tomus primus, Neapoli, 1836, pp. 111-112: De Controversiis Christiane Fidei, De
Verbo Dei, liber tertius, caput X)
(Nota do Editor: A passagem em Jeremias comentada é essa: “Então,
ninguém terá encargo de instruir seu próximo ou irmão, dizendo: “Aprende a conhecer o Senhor”, porque todos me conhecerão, grandes e
pequenos – oráculo do Senhor –, pois a todos perdoarei as faltas, sem guardar
nenhuma lembrança de seus pecados” (cap. 31, v. 34)).
LUIS DE GRANADA:
“Segundo sinal: da conversão dos
povos ao verdadeiro Deus. Outra profecia diz que neste tempo os gentios em
lugar de seus falsos deuses receberiam e adorariam ao Deus dos judeus, como ao único e verdadeiro Deus. Assim
o profetizou Davi quando diz (e) que os príncipes dos povos se juntariam com o
Deus de Abraão. E por Isaías diz o próprio Senhor (f): Buscaram-me os que antes
não perguntavam por mim; e acharam-me os que não me buscavam. E eu disse:
Eis-me aqui, eis-me aqui, ao povo que não invocava meu nome. E por Oséias diz o
próprio Senhor (g): Direi ao povo que não era meu: Tu és meu povo. E ele dirá:
Tu és meu Deus. Destas profecias que tratam da vocação e conversão dos povos ao
culto e conhecimento do Deus de Abraão, está farto o profeta Isaías, como
pessoa escolhida por Deus para profetizar esta vocação. E que esta tão obra
teria de ser realizada por meio do Salvador, declarou-o o Pai eterno no mesmo
Profeta, falando com seus Messias, por estas palavras (h): Pouco és que sejas
meu servo para trazer meus servidos as tribos de Jacó, e converter os resíduos
de Israel: eu te dei para que sejas luz dos povos, e salvação minha até os fins
da terra. Isso vemos já cumprido; pois todas as nações do mundo, não somente de
cristãos e judeus, mas também de turcos e mouros, adoram e confessam ao Deus de Abraão como ao verdadeiro Deus: posto
isso erram, pois não lhe conhecem por trino e uno como é. Pelo qual
entenderemos que desde que Deus criou ao mundo até o dia presente não se viu
homem que tão grande obra abasse, e tão grande benefício fizesse ao mundo, como
nosso Jesus. Porque tirar ao mundo de tão grande mal, e tão universal como era
a idolatria, e fazer-lhe tão grande bem como é o conhecimento do verdadeiro
Deus, está claro que foi o maior benefício de quantos até hoje fez ao mundo”. [Segunda
señal: de la conversión de las gentes al verdadero Dios. Otra profecía dice que
en este tiempo los gentiles, en lugar de sus falsos dioses, habían de recibir y
adorar al Dios de los judíos, como à solo y verdadero Dios. Así lo profetizó
David cuando dijo (e) que los príncipes de los pueblos se habían de juntar con
el Dios de Abraham. Y por Isaías dice el mismo Señor (f): Buscaronme los que
antes no preguntaban por mí; y halláronme los que no me buscaban. Y yo dije:
Veisme aquí, veisme aquí, a la gente que no invocaba mi nombre. Y por Oseas
dice el mismo Señor (g): Diré al pueblo que no era mío: Tú eres mi pueblo. Y él
dirá: Tú eres mi Dios. Destas profecías que tratan de la vocación y conversión
de las gentes al culto y conocimiento del Dios de Abraham, está lleno el
profeta Esaías, como persona escogida por Dios para profetizar esta vocación. Y
que esta tan grande obra había de ser hecha por medio del Salvador, declarólo
el Padre eterno en el mismo Profeta, hablando con su Mesías, por estas palabras
(h): Poco es que seas mi siervo para traer á mi servicio los tribus de Jacob, y
convertir las heces de Israel: yo te he dado para que seas luz de las gentes, y
salud mía hasta los fines de la tierra. Esto vemos ya cumplido; pues todas las
naciones del mundo, no solo de cristianos y judíos, mas también de turcos y moros, adoran y confiesan al Dios de Abraham como à verdadero
Dios: puesto caso que yerran, pues no le conocen por trino y
uno como él es. Por lo cual entenderemos que desde que Dios crió al mundo hasta
el día presente no se ha visto hombre que tan grande obra acabase, y tan grande
beneficio hiciese al mundo, como nuestro Jesús. Porque sacar al mundo de tan
grande mal, y tan universal como era la idolatría, y hacerle tan grande bien
como es el conocimiento del verdadero Dios, claro está que ha sido el mayor
beneficio de quantos hasta hoy se han hecho al mundo]. (Obras del V. P. M. Fray
Luis de Granada, tomo primero., Madrid, 1856, p. 717: Del Simbolo de la Fe,
Tratado Cuarto deste Summario, Parte V, Capitulo Primeiro, §. II).
LUÍS DE LEÃO:
"Assim, no primeiro estado
deste povo, houve entre os judeus homens justíssimos; e outros pecadores, mas
ainda assim fiéis ao culto do único Deus; e houve outros que, embora cultuassem
um só Deus e cressem no Messias futuro, contudo associavam ao seu culto o culto
e a religião de outros deuses, tais como foram muitos das dez tribos sob os
reis israelitas. Assim também, depois da vinda de Cristo, este povo de Deus,
que segundo a descendência pertence a Abraão, tem várias partes: pois há uns
que são justos; outros, pecadores, mas que conservam integralmente a profissão
da fé, como todos os cristãos; há também outros, que cultuam conosco um [só] Deus e colocam sua esperança em Cristo,
mas erram nisto, por acreditarem que Ele ainda não veio, mas esperam que venha:
tais são os judeus, que por essa razão foram separados da Igreja, mas que, no
entanto, pertencem segundo a descendência a Abraão, e não são de modo algum
negligenciados por Deus, mas entre vários e grandes perigos são conservados e
castigados com vários trabalhos, até que, tendo reconhecido seu erro, no fim
dos tempos, convertidos à fé de Jesus Cristo, juntamente com os demais fiéis
formem um só corpo". [Sic in primo hujus populi statu, fuerunt inter
Judaeos viri justissimi; et alii peccatores, sed tamen permanentes in unius Dei
cultu fideles; et fuerunt alii, qui, quamvis colebant unum Deum et credebant
Messiam futurum, tamen conjungebant cum ejus cultu aliorum deorum cultum atque
religionem, quales fuerunt plurimi ex decem tribus ab regibus Israelitis. Sic
etiam, post Christi adventum, hic populus Dei, qui genere ad Abraham pertinet,
varias habet partes: alii, enim, sunt justi; alii peccatores, integre tamen
retinentes professionem fidei, quales sunt omnes christiani; alii vero, qui
unum Deum nobiscum colunt et spem suam collocant in Christo, sed tamen errant
in eo, quod nondum venisse credunt]. (Mag. Luysii Legionensis, Augustianiani,
Divinorum Librorum Primi apud Salmanticenses Interpretis, Opera, Tomus I, 1891,
pp. 101-102: In Canticum Moysis Expositio).
GALLO CARTIER:
“Resposta 2. Aqui o Profeta não
fala dos mistérios ocultos das Escrituras, mas do conhecimento do um [só] Deus;
vemos que esta profecia se cumpriu. Pois os gentios e os idólatras se
converteram à fé, e até mesmo os judeus, antes inclinados à idolatria, e os
turcos, embora ímpios, cultuam conosco
um [só] Deus” [Resp. 2do. Hic Propheta non loquitur de mysteriis
absconditis Scripturarum, sed de cognitione unius Dei; quam Prophetiam
adimpletam cernimus. Nam Gentiles, & Idololatrae conversi sunt ad fidem,
ipsique Judaei olim ad idololatriam proclives, & Turcae, licet impii, unum
Deum nobiscum colunt]. (Theologia universalis, tomus I., De
Locis Theologicis, Tractatus I, caput VI, 1758, p. 58)
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