As Comunidades Separadas São Meios de Salvação?
Para responder ao título, devo tratar primeiramente da possibilidade da salvação fora da Igreja, pois o meio tradicionalista é muito diversificado, boa parte aceita essa possibilidade, entretanto, alguns interpretam o dogma Extra Ecclesiam nulla salus de forma rigorista, principalmente com base na bula Unam Sanctam do Papa Bonifácio VIII:
“Impelidos pela fé, somos obrigados a crer e a afirmar que a Igreja é una, santa, católica e também apostólica. Cremos firmemente nela e confessamos com simplicidade que fora dela não há salvação nem remissão dos pecados [...] Além disso, declaramos, proclamamos e definimos que é absolutamente necessário para a salvação que toda criatura humana se submeta ao Romano Pontífice.”[1]
Quem interpreta esses ensinamentos de forma rigorista provavelmente desconhece que a aplicação dessa doutrina foi sendo desenvolvida ao longo do tempo. Por exemplo, um dos maiores tomistas do século XX, o Pe. Garrigou-Lagrange, admite a possibilidade de salvação da maioria dos cismáticos e protestantes batizados:
“Os teólogos, em geral, tendem a completar aquilo que a Sagrada Escritura e a Tradição nos ensinam, distinguindo os meios de salvação concedidos aos católicos daqueles que são concedidos aos homens de boa vontade que se encontram para além das fronteiras da Igreja. Restringindo a questão aos católicos, encontramos a doutrina, geralmente sustentada sobretudo desde Suárez, de que, se considerarmos apenas os adultos, o número dos eleitos é superior ao dos réprobos. [...] Mas, se tratamos de todos os cristãos, de todos os que foram batizados, católicos, cismáticos e protestantes, é mais provável, dizem geralmente os teólogos, que a grande maioria seja salva. Em primeiro lugar, é muito grande o número das crianças que morrem no estado de graça antes de atingir a idade da razão. Em segundo lugar, muitos protestantes, encontrando-se hoje em boa-fé, podem reconciliar-se com Deus por um ato de contrição, particularmente quando se encontram em perigo de morte. Em terceiro lugar, os cismáticos podem receber uma absolvição válida.”
Em seguida, Lagrange também admite a possibilidade de salvação entre os não cristãos:
“Ademais, entre os não cristãos (judeus, muçulmanos, pagãos) há almas que são eleitas. Os judeus e os muçulmanos não apenas admitem o monoteísmo, mas conservam fragmentos da revelação primitiva e da revelação mosaica. Creem em um Deus que recompensa sobrenaturalmente e podem, assim, com o auxílio da graça, fazer um ato de contrição. E mesmo aos pagãos que vivem em uma ignorância invencível e involuntária da verdadeira religião, e que ainda procuram observar a lei natural, são oferecidos auxílios sobrenaturais, por meios conhecidos de Deus. Estes, como diz Pio IX, podem chegar à salvação. Deus nunca ordena o impossível. Àquele que faz o que está ao seu alcance, Deus não recusa a graça.” [2]
Agora, tratando-se do Magistério da Igreja, Pio IX, como citado por Lagrange no trecho acima, já ensinava sobre a possibilidade de alguém fora da estrutura visível da Igreja ser salvo:
“Aqueles que padecem de ignorância invencível sobre nossa muito santa religião e que, observando constantemente a lei natural e seus preceitos que Deus escreveu nos corações de todos, e estando dispostos a obedecer a Deus, viver uma vida honesta e honrada podem, através da ação da luz divina e da graça, alcançar a vida eterna [...]” [3]
Posteriormente, durante o pontificado de Pio XII, o Arcebispo de Boston foi acusado de heresia pelo Padre Feeney por defender a possibilidade de salvação daqueles que estão fora da estrutura visível da Igreja. Em 1949, o então Santo Ofício se posicionou para esclarecer a questão:
“Entre as coisas que a Igreja sempre pregou e nunca deixará de pregar está também a afirmação infalível que nos ensina que “fora da Igreja não há salvação” . Este dogma, porém, deve ser entendido no sentido em que a própria Igreja o entende. Com efeito, não é ao juízo privado que nosso Salvador confiou a explicação do que está contido no depósito da fé, mas ao magistério eclesiástico. [...]
Pois para que alguém obtenha a salvação eterna não é sempre necessário que seja efetivamente incorporado à Igreja como membro, mas requerido é que esteja unido por voto e desejo. Todavia, não é sempre necessário que este voto seja explícito como o é aquele dos catecúmenos, mas, quando o homem é vítima de ignorância invencível, Deus aceita também o voto implícito, chamado assim porque incluído na boa disposição de alma pela qual essa pessoa quer conformar sua vontade à vontade de Deus. ”
Ainda na mesma Carta, o Santo Ofício se embasa em Pio XII:
“É esse o ensino claro [da encíclica de Pio XII] a respeito do corpo místico de Jesus Cristo. o Sumo Pontífice distingue claramente os que são realmente incorporados à Igreja como seus membros e os que à Igreja são unidos somente pelo voto [...] pelo fim desta mesma encíclica, todavia, convidando afetuosamente à unidade os que não pertencem à contextura da Igreja Católica, ele menciona "os que por certo desejo e voto inconsciente estão ordenados ao corpo místico do redentor", sem os excluir de modo algum da salvação, embora de outra parte diga, a seu respeito, que se encontram num estado em que não podem estar seguros de sua eterna salvação [...]”[4]
Portanto, o Magistério anterior ao CVII já reconhecia a possibilidade de salvação dos indivíduos que não pertencem visivelmente à Igreja, sob as condições ensinadas pela própria Igreja.
Esclarecida essa questão, tratarei do título do artigo:
A objeção de muitos tradicionalistas tem origem no número 3 do documento Unitatis Redintegratio:
"Por isso, as Igrejas e Comunidades separadas, embora creiamos que tenham defeitos, de forma alguma estão despojadas de sentido e de significação no mistério da salvação. Pois o Espírito de Cristo não recusa servir-se delas como de meios de salvação cuja virtude deriva da própria plenitude de graça e verdade confiada à Igreja Católica.”[5]
Eles entendem que o texto considera as próprias comunidades separadas, enquanto separadas, como instrumentos de salvação, o que seria contrário à doutrina tradicional de que a Igreja Católica é o único meio de salvação.
Porém, está claro no próprio texto que a virtude da salvação é derivada da plenitude de graça e verdade confiada à Igreja Católica. Ou seja, as igrejas e comunidades separadas não são meios de salvação em razão de sua separação, mas em razão dos elementos eclesiais que estão presentes nelas.
Foi o que a própria Comissão Doutrinal do Concílio esclareceu:
“Sem dúvida, Deus utiliza as próprias Comunidades separadas, não enquanto separadas, mas enquanto constituídas pelos referidos elementos eclesiais, para conferir aos fiéis a graça salutar.”[6]
Além disso, o próprio número 3 do documento reafirma a necessidade da plena incorporação à Igreja:
“Contudo, os irmãos separados, quer os indivíduos quer as suas Comunidades e Igrejas, não gozam daquela unidade que Jesus quis prodigalizar a todos os que regenerou e convivificou num só corpo e numa vida nova e que a Sagrada Escritura e a venerável Tradição da Igreja professam. Porque só pela Igreja católica de Cristo, que é o meio geral de salvação, pode ser atingida toda a plenitude dos meios salutares. Cremos também que o Senhor confiou todos os bens da nova Aliança ao único colégio apostólico, a cuja testa está Pedro, com o fim de constituir na terra um só corpo de Cristo. É necessário que a ele se incorporem plenamente todos os que de alguma forma pertencem ao Povo de Deus.”
Ainda sobre a utilização da expressão “meios de salvação”, relembro o início da citação de Lagrange que fiz no início do artigo. Não é um vocabulário estranho, pois ele mesmo o utilizou ao tratar dos não católicos:
“Os teólogos, em geral, tendem a completar aquilo que a Sagrada Escritura e a Tradição nos ensinam, distinguindo os meios de salvação concedidos aos católicos daqueles que são concedidos aos homens de boa vontade que se encontram para além das fronteiras da Igreja [...]”
Aproveitando o gancho, finalizo tratando também do termo “elementos”. Segundo os tradicionalistas, além de ser uma novidade, seria um termo inapropriado. Respondo-lhes citando dois papas anteriores ao CVII, que utilizavam um vocabulário similar, reconhecendo de forma positiva aquilo que os cismáticos conservam:
Leão XIII, sobre as Igrejas Orientais separadas:
“Estreitar cada vez mais aquelas nobres Igrejas a esta suprema Sé de Pedro [...] mover aquelas que no próprio Oriente dela estão separadas, a reatar os vínculos da primitiva concórdia e reverência filial. — Se venturoso êxito, oh quanta glória não redundaria ao eterno pastor das almas! Que vigor e novo esplendor difundiria por toda a Igreja católica universal, não sem uma suave eficácia sobre os irmãos que em outras regiões ainda são dissidentes! Imensas, depois, as vantagens de santa fecundidade, com que todo o Oriente cristão se renovaria, na hierarquia, no clero, no monaquismo, no povo. Mais ainda o abundante elemento de fé e de vida cristãmente civil que aquelas nações ainda conservam, dilatando-se pela esperada união, não se pode dizer quanta utilidade fecunda ainda redundaria para o Ocidente.”[7]
Pio XI utiliza o termo “fragmentos” e os compara a ouro:
“Parecem incríveis os erros e os equívocos que subsistem entre os irmãos separados do Oriente e que se repetem sempre contra a Igreja Católica. Mas também aos católicos falta às vezes a justa apreciação dos seus irmãos separados, falta às vezes a piedade fraterna, porque falta o conhecimento. Não se conhece tudo o que há de precioso, de bom, de cristão nesses fragmentos da antiga verdade católica. Os blocos desprendidos de uma rocha que contém ouro também contêm ouro; as veneráveis cristandades orientais conservam uma tal veneranda santidade de coisas, que merecem não só todo o respeito, mas também toda a simpatia.”.[8]
Referências:
[1] BONIFÁCIO VIII, Papa. Unam Sanctam. Papal Encyclicals Online, [s. d.]. Disponível em: https://www.papalencyclicals.net/bon08/b8unam.htm
[2] GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. Life Everlasting. 2. ed. London: B. Herder Book Co., 1956. p. 259-260. Tradução de: L'éternelle vie et la profondeur de l'âme.
[3] PIO IX, Papa. Quanto conficiamur moerore. Vaticano, 10 ago. 1863. Disponível em: https://www.vatican.va/content/pius-ix/it/documents/enciclica-quanto-conficiamur-10-agosto-1863.html
[4] SANTO OFÍCIO. Carta ao Arcebispo de Boston, 8 ago. 1949. In: DENZINGER, Heinrich; HÜNERMANN, Peter. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. 3. ed. São Paulo: Paulinas; Loyola, 2007. n. 3870-3871.
[5] CONCÍLIO VATICANO II. Decreto Unitatis redintegratio: sobre o ecumenismo. Vaticano, 21 nov. 1964. Disponível em: https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_decree_19641121_unitatis-redintegratio_po.html
[6] CONCÍLIO VATICANO II. Congregatio Generalis CXIX, 10 nov. 1964. In: IGREJA CATÓLICA. Acta Synodalia Sacrosancti Concilii Oecumenici Vaticani II. Vol. III: Periodus tertia. Pars VII: Congregationes generales CXIX-CXXII. Città del Vaticano: Typis Polyglottis Vaticanis, 1975. p. 35.
[7] LEÃO XIII. Discurso aos Cardeais da Santa Igreja Romana, por ocasião do aniversário de sua coroação pontifícia, 2 mar. 1895. In: Leonis XIII Pontificis Maximi Acta. Roma: Typographia Vaticana, 1896. v. 15, p. 431-432.
[8] PIO XI. Discurso de 8 de janeiro de 1927. In: BERTETTO, Domenico (Org.). Discorsi di Pio XI. Torino: Società Editrice Internazionale, 1960. v. 1, p. 671. Publicado originalmente em: L'Osservatore Romano, 10-11 jan. 1927, n. 7, p. 3, col. 4-6.

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